quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Conto - Obstinado



Por Paulo Vitor Mendonça
 

Peguei meus chinelos nas mãos e senti a areia fofa da praia abraçando meus pés. Caminhei até a água, dando pulinhos ridículos por causa do calor que vinha da areia. Pisei na água e senti alívio. Perguntei-me se a morte era assim, um desespero ridículo antes de um alívio eterno.
Já tinha me despedido de todo mundo que importava, mesmo que eles não soubessem. Tossi. Minha tuberculose tinha piorado nos últimos meses. Não tinha mais volta, a doença me mataria em pouco tempo. Então, por que eu mesmo não deveria decidir quando?
Sempre fui assim: levo o que coloco na cabeça até o fim. Quando criança, decidi que usaria para sempre a mesma cueca, e sempre dava um jeito de achá-la no cesto de roupa suja, ou tirava, molhada mesmo, da máquina de lavar para vesti-la. Até do lixo a salvei, até que um dia minha mãe botou fogo na pecinha, enquanto me chamava de “demônio obstinado”. Desde então eu sei o que sou. Um obstinado.
E agora era hora! Joguei meus chinelos e comecei a correr em direção ao fundo do mar. Sorri, confiante, dizendo adeus ao mundo. Tropecei. Levantei-me, já amaldiçoando o que quer que tivesse estragado meu grande momento. Tateei o chão e tirei da água um crânio que sorria com todos os dentes pra mim, como se tivesse me derrubado de propósito.
Tossi. Sangue voou sobre a caveira, que começou a se esquentar e borbulhar até que não pude mais segurá-la.  Ela caiu na água, produzindo um chiado. Desse lugar, emergiu uma mulher. Usava um vestido colorido cheio de véus e o cabelo estava arrumado demais para alguém que era uma caveira havia apenas alguns segundos. Tinha o mesmo sorriso cheio de dentes.
– Oi, sou Jena, uma gênia, gostaria de agradecer por me tirar do sono eterno com o seu sacrifício.
– Por nada. – Continuei a minha caminhada para a morte. Mas a Jena-gênia me seguiu.
– Espera, você não vai ficar espantado? Me perguntar se posso te conceder um desejo?
– Na verdade, não. Eu estava no meio de um processo, sabe, e ter que lidar com o sobrenatural vai me distrair muito.
A gênia ficou me olhando, perplexa, e parecia estar tentando me desvendar. Saco. Estava com pressa e ela lá, com cara de ampulheta rodando.  Depois de longos segundos, ela sorriu e prosseguiu.
– Ah, agora entendi. Eu posso curar sua tuberculose, você não precisa morrer tão jovem.
Ela fez uma pausa para ver a minha reação. Ok, ela descobriu sobre a doença. Gênia, poderes e tudo mais. E daí? Apenas respirei fundo.
– Veja bem, eu já tinha esse plano aqui de me matar. É a minha grande escapada da vida. Não sou de voltar atrás. E, pensando bem, mesmo que não estivesse doente, morrer é o melhor caminho, é a liberdade. Sabe o que tem lá na vida? Contas, contas e mais contas pra pagar. E pra isso você precisa de dinheiro. E pra isso precisa trabalhar. Gente te mandando o que fazer o tempo todo. Não, obrigado. Já estou em outra. Agora, dá licença?
Continuei a minha rota para o pós-vida, mas ouvi a garota choramingando.
– Eu preciso que você faça um pedido! Por favor, senão ficarei presa a você, mesmo morto, aqui no mar! Por favor!
Saquei que ela ia ficar nesse chororô até a eternidade. A voz fininha reclamando no meu ouvido.
– Um pedido só? – Bufei e vi que a garota assentia com a cabeça. – Tá, tá! Me arruma um cigarro.
– Um maço?
– Não, um solto, porque estou com pressa. E faz ele aceso e à prova d’água.
A garota balançou as mãos e um cigarro azulado surgiu em minha boca. Traguei fundo e soltei a fumaça. Tossi. Uma bomba.
– Ótimo, genial, você podia ficar rica vendendo esses cigarros à prova d’água numa praia. – Vi que ela sorriu para mim. – Bom, vou indo, passar bem.
Caminhei para a minha morte, finalmente, enquanto a garota saltitava, toda contente, em direção à praia. Logo os meus pulmãos começaram a se encher de água e eu me debatia, a caminho do fundo do mar. Antes de perder a consciência, vi a gênia tropeçar nos meus chinelos na beira da praia. Sorri. Bem feito.

Ilustração de Walter Tierno
Conto escrito no Escrevivendo 1 - Menos é mais.

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