quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Conto



Solsona nasceu sem maiores complicações.
Pelo menos, nada que dois dias na incubadora não resolvessem.
Nasceu quase normal. Seu coração funcionava perfeitamente. Tinha dois olhos, dois pulmões, duas orelhas, duas narinas, dez dedos nos pés e dez dedos nas mãos.
Quase normal.
A mão esquerda tinha três dedos. À direita restaram os outros sete.
Humanos adaptam-se a uma infinidade de adversidades. Assim seria com Solsona, não fosse um detalhe de sua personalidade. Era compulsivo. Obcecado por simetria. Tinha essa chatice desde muito novo e a passagem dos anos só fez aumentar.
Aos treze anos, o desequilíbrio estético de suas mãos tornou-se uma tortura.
A assimetria de suas mãos consumia a maior parte de seu tempo acordado e a totalidade de seu tempo de sono. Os pesadelos se sucediam por toda noite.
Sonhava com mãos simétricas, com cinco dedos em cada uma. Essas mãos tornavam-se gigantescas justiceiras que esmagavam pequenas mãos disformes, com três ou sete dedos.
Sonhava com celas escuras e suadas, com grades em formas de dedos. Dentro delas, lindas mulheres com unhas nos lugares dos rostos chupavam o sangue de pulsos milimetricamente cilíndricos.
Sonhava com aviões que despencavam. As asas, mãos com distribuição desigual de dedos.
E em seu dia-a-dia? A obsessão por simetria o presenteava com toda forma de autosabotagem.
Tentou ser goleiro durante a aula de educação física. Travou no centro do gol. As boladas entravam pelos lados. Menos uma, mirada no centro. Acertou-lhe o nariz.
Nas demais aulas, perdia tanto tempo organizando suas coisas e ideias, que não prestava atenção ao que diziam os professores. Mas ficava satisfeito. Tinha notas medianas.
De todos os seus tormentos, no entanto, as mãos lideravam.
Solsona sabia que nenhum médico era capaz de lhe dar a tão desejada simetria. Queria que algum lhe cortasse de um lado para compensar no outro. E nada de cicatrizes, claro.
Um dos tantos que visitou respondeu da forma mais polida que conseguiu:
“Peraí. Você quer que eu tire dois dedos funcionais da direita e implante na esquerda, só para ficar bonitinho? Tá maluco? Toma aqui. Este é o nome do psiquiatra da clínica. Pede para marcar uma consulta ali no balcão.”
Ele nunca procurou o psiquiatra.
Chegou aos dezoito anos convencido de que a única forma de igualar suas mãos seria amputar ambas.
Ainda não chegara a realizar seu intento. Não pela idiotice da ideia, mas porque tinha aversão à dor.
Aos vinte e um, Sofia mudou sua vida.
Era a perfeição em forma de mulher, por mais clichê que esta frase possa parecer...
Seus abundantes cabelos negros eram ondulados, brilhantes e cheiravam a erva-doce. Os olhos cinzentos eram como fornos que congelavam. Os seios eram inacreditavelmente firmes. Nem muito grandes, nem muito pequenos. Apetitosos. O único defeito de Sofia era a divisão dos dez dedos entre suas mãos. Sete na mão esquerda e três na direita.
Por esse pequeno e estúpido detalhe, os que se deitavam com Sofia não reconheciam a estupenda sorte e a dispensavam.
Não Solsona.
Ele agiu diferente.
Quando a conheceu, derreteu-se em gentileza e charme fingido. Foi numa tarde de sábado. Frio de trincar os ossos.
Solsona já era adulto. Trabalhava em livraria, anotando pedido e ajeitando livros nas prateleiras.
Tomava um café na doceria nova que abriram na galeria onde fica a livraria.
Sofia comia uma torta de limão e bebia chá.
Toda ela perfeita, simétrica, equilibrada. Menos as mãos, mas essas só esperavam o encaixe certo. Esperavam por Solsona.
Convidou-a para um jantar.
No jantar, cobriu-a de elogios, escutou atentamente a tudo que ela disse, concordou e complementou.
Transaram.
Ela, com habilidade e criatividade. Ele, sem imaginação, burocrático, ejaculador precoce.
Mesmo assim, continuaram juntos. Sofia, por alguma razão que escapava a toda lógica do universo, gostava de Solsona.
Com tempo e paciência, Sofia ensinou Solsona a satisfazê-la.
O amor durou dois anos.
Nada a se estranhar. Quem aguentaria um sujeito como Solsona por muito tempo?
Rejeitava filmes quando percebia alguma falha. Recusava-se a assistir a programas de televisão que ousassem cometer algum erro. Jogava livros por apresentarem pequenos defeitos, por mais sutis que fossem. Devolvia ao cesto roupas que não estavam perfeita e simetricamente limpas e passadas.
Em resumo, Solsona era um perfeito, completo e simétrico chato!
Sofia o amou, sim.
Ou pensou ter amado.
Talvez tudo não passasse de um encontro de carências.
Era uma tarde de sábado quando terminaram. Foram a um restaurante simples. Àquela hora, o movimento estava fraco.
Sofia tentou que fosse indolor: “Não é você... O problema sou eu...”
Solsona era chato, não burro. A conversa mole não colou.
“A gente não pode terminar! Não pode!” ele gritou, desesperado. Seu mundo desmoronando. Onde ele encontraria uma mulher como Sofia? Ela trazia equilíbrio à sua vida. Suas mãos se encaixavam!!!
Sofia não cedeu. Não podia. Não queria.
Ele chorou, implorou, acusou e xingou.
Ela explodiu: “Quer saber a verdade? O problema não sou eu. Não somos nós! É você! Não te aguento mais! Você é um chato!”
“Eu sei! Mas nossas mãos...”
“Que tem?”
“Elas se encaixam!”
“Como é? Espera um pouco ai! Você ficou comigo porque me ama ou por causa das minhas mãos?”
“Elas se encaixam!”
Sofia não ouviu mais nada. Encaixou um tapão na cara de Solsona com sua mão de sete dedos. Levantou-se e foi embora.
Durante o mês seguinte, não se viram.
Não até aquela manhã de domingo.
Solsona já havia considerado cuidadosamente os benefícios do suicídio. O fim de sua agonia e de sua solidão. Tudo deixaria de importar. Enumerou e examinou cada técnica. Frustrou-se já no planejamento.
Um tiro na têmpora seria a representação de toda a assimetria que o atormentava. Afinal, tinha que escolher um lado da cabeça para enfiar a bala.
Um tiro na testa. Mas como controlar a posição em que o corpo cairia?
Enforcar-se, talvez? Mas a cabeça poderia pender para um lado... Jogar-se do alto de um prédio? Seria um caos na calçada lá embaixo. Veneno. Assim, teria tempo de posicionar-se satisfatoriamente para esperar a morte...
Era o método perfeito.
Não fosse o fato de, por ter pensado tanto no assunto, render-se ao medo.
Desistiu.
Mas ele tinha que recuperar sua integridade simétrica. Tinha que recuperar Sofia.
Por isso, naquela manhã de domingo, ele se armou.
De coragem.
A casa de Sofia ficava em um condomínio afastado. Solsona, conhecido pelo porteiro, não teve dificuldade em passar pelo portão principal. Caminhou por ruas desertas.
Aos domingos, os moradores de condomínios não aguentam o marasmo pelo qual pagaram pequenas fortunas. Embarcam em seus carros e fogem para o movimento da cidade e seus shopping centers.
Sofia estava triste demais para acompanhar os pais. A mãe tinha avisado: “Esse teu namorado é um merda.”
Demorou a dar ouvidos. Não muito, só o suficiente para ficar triste.
Estava em casa, assistindo a filmes velhos e enchendo o perfeito quadril com as calorias de sorvetes de chocolate, quando a campainha tocou.
A casa tinha um portão baixo, que dava acesso a um corredor de pedra, cercado por jardins perfeitamente conservados, e que terminava em uma grande porta de madeira maciça.
Ao lado do portão, havia um interfone.
Era Solsona quem apertava o botão.
“Sim?” A voz sensual de Sofia.
“Sou eu. Quero conversar.” A voz irritante de Solsona.
“Não tem mais nada pra gente conversar.”
“Eu te amo, Sofia.”
“Você não ama porra nenhuma! Você só quer sei lá que merda de simetria entre nossas mãos! Você é doente! Não. É mais que isso. É um idiota! Vá à merda!”
Sofia desligou o interfone. Como a campainha não foi novamente tocada, nem uma única batida retumbou na porta, voltou a seu sorvete de chocolate, triunfante. A descarga de insultos fora ainda mais satisfatória que o tapa.
Mas Solsona não havia desistido. Estava determinado a não sair dali sem reconquistar o amor de sua vida.
Sua simetria.
Testou o portão. Estava trancado, mas era baixo. Pularia.
Para qualquer mortal, pular um portãozinho não é grande coisa. Mas, para Solsona, era um trabalho complexo. Afinal, como escolher com qual perna subir?
Resolveu, depois de pensar, calcular e considerar por meia hora, usar as duas.
Tomou distância, correu e pulou. Levou os joelhos para junto do peito. As pontas dos pés, no entanto, não ultrapassaram o obstáculo. Projetou-se desastrosamente para o outro lado, aterrissando com as duas assimétricas mãos e o nariz.
Uma hora depois, Sofia saiu para reclamar pessoalmente com o porteiro, por ter deixado o inconveniente ex-namorado entrar.
Encontrou Solsona aterrissado no caminho que levava do portão à porta, cercado pelos jardins. Seu corpo era um exemplo de perfeição e simetria.
A mesma quantidade de sangue saíra das duas narinas. A cara estava perfeitamente amassada. Nem um pouco pendente para um lado ou para o outro. Nada que o lado esquerdo de seu corpo fizera deixara de refletir no direito. Nem suas mãos desequilibravam a figura. A mão com três dedos estava aberta, em um ângulo estranho em relação ao pulso. A com sete estava no mesmo ângulo, contrário, mas os quatro dedos a mais estavam contraídos.
O nariz, os pulsos e o pescoço de Solsona quebrados pela queda.
Morrera instantaneamente.
Como o corpo acabara em tamanho equilíbrio, só o deus da simetria saberia responder.
Sofia descobriu, logo depois, que estava grávida.
Era filho de Solsona, sem dúvida.
O menino que nasceu tinha as mãos normais. Cinco dedos para cada.
Já os pés...

Conto escrito por Walter Tierno
www.waltertierno.com.br 

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