segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Sessão de autógrafos

Saudações, escreviventes e leitores. No próximo sábado, dia 22 de outubro, a partir das 15 H, eu estarei realizando uma sessão de autógrafos e o lançamento de meu terceiro livro, "Como Tatuagem", e gostaria de convidar a todos. Venha, traga seus livros para autografar ou apareça apenas para batermos um papo.
O link para o evento no Facebook é este aqui.
Será na livraria Martins Fontes Paulista. Fica na Avenida Paulista, em frente à estação Brigadeiro do Metrô. Facinho de chegar. Para quem for de carro, tem convênio com estacionamentos. Entre no link do evento para ter os detalhes.
Aguardo vocês.
Além disso, na quinta, dia 20, eu, a Giulia Moon e o Marcos DeBrito faremos um bate-papo sobre personagens  na Anhembi Morumbi, campus Mooca, às 9:30h. É aberto ao público. Se estiver interessado, venha. O link com todas as informações do evento é este aqui.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Conto - Obstinado



Por Paulo Vitor Mendonça
 

Peguei meus chinelos nas mãos e senti a areia fofa da praia abraçando meus pés. Caminhei até a água, dando pulinhos ridículos por causa do calor que vinha da areia. Pisei na água e senti alívio. Perguntei-me se a morte era assim, um desespero ridículo antes de um alívio eterno.
Já tinha me despedido de todo mundo que importava, mesmo que eles não soubessem. Tossi. Minha tuberculose tinha piorado nos últimos meses. Não tinha mais volta, a doença me mataria em pouco tempo. Então, por que eu mesmo não deveria decidir quando?
Sempre fui assim: levo o que coloco na cabeça até o fim. Quando criança, decidi que usaria para sempre a mesma cueca, e sempre dava um jeito de achá-la no cesto de roupa suja, ou tirava, molhada mesmo, da máquina de lavar para vesti-la. Até do lixo a salvei, até que um dia minha mãe botou fogo na pecinha, enquanto me chamava de “demônio obstinado”. Desde então eu sei o que sou. Um obstinado.
E agora era hora! Joguei meus chinelos e comecei a correr em direção ao fundo do mar. Sorri, confiante, dizendo adeus ao mundo. Tropecei. Levantei-me, já amaldiçoando o que quer que tivesse estragado meu grande momento. Tateei o chão e tirei da água um crânio que sorria com todos os dentes pra mim, como se tivesse me derrubado de propósito.
Tossi. Sangue voou sobre a caveira, que começou a se esquentar e borbulhar até que não pude mais segurá-la.  Ela caiu na água, produzindo um chiado. Desse lugar, emergiu uma mulher. Usava um vestido colorido cheio de véus e o cabelo estava arrumado demais para alguém que era uma caveira havia apenas alguns segundos. Tinha o mesmo sorriso cheio de dentes.
– Oi, sou Jena, uma gênia, gostaria de agradecer por me tirar do sono eterno com o seu sacrifício.
– Por nada. – Continuei a minha caminhada para a morte. Mas a Jena-gênia me seguiu.
– Espera, você não vai ficar espantado? Me perguntar se posso te conceder um desejo?
– Na verdade, não. Eu estava no meio de um processo, sabe, e ter que lidar com o sobrenatural vai me distrair muito.
A gênia ficou me olhando, perplexa, e parecia estar tentando me desvendar. Saco. Estava com pressa e ela lá, com cara de ampulheta rodando.  Depois de longos segundos, ela sorriu e prosseguiu.
– Ah, agora entendi. Eu posso curar sua tuberculose, você não precisa morrer tão jovem.
Ela fez uma pausa para ver a minha reação. Ok, ela descobriu sobre a doença. Gênia, poderes e tudo mais. E daí? Apenas respirei fundo.
– Veja bem, eu já tinha esse plano aqui de me matar. É a minha grande escapada da vida. Não sou de voltar atrás. E, pensando bem, mesmo que não estivesse doente, morrer é o melhor caminho, é a liberdade. Sabe o que tem lá na vida? Contas, contas e mais contas pra pagar. E pra isso você precisa de dinheiro. E pra isso precisa trabalhar. Gente te mandando o que fazer o tempo todo. Não, obrigado. Já estou em outra. Agora, dá licença?
Continuei a minha rota para o pós-vida, mas ouvi a garota choramingando.
– Eu preciso que você faça um pedido! Por favor, senão ficarei presa a você, mesmo morto, aqui no mar! Por favor!
Saquei que ela ia ficar nesse chororô até a eternidade. A voz fininha reclamando no meu ouvido.
– Um pedido só? – Bufei e vi que a garota assentia com a cabeça. – Tá, tá! Me arruma um cigarro.
– Um maço?
– Não, um solto, porque estou com pressa. E faz ele aceso e à prova d’água.
A garota balançou as mãos e um cigarro azulado surgiu em minha boca. Traguei fundo e soltei a fumaça. Tossi. Uma bomba.
– Ótimo, genial, você podia ficar rica vendendo esses cigarros à prova d’água numa praia. – Vi que ela sorriu para mim. – Bom, vou indo, passar bem.
Caminhei para a minha morte, finalmente, enquanto a garota saltitava, toda contente, em direção à praia. Logo os meus pulmãos começaram a se encher de água e eu me debatia, a caminho do fundo do mar. Antes de perder a consciência, vi a gênia tropeçar nos meus chinelos na beira da praia. Sorri. Bem feito.

Ilustração de Walter Tierno
Conto escrito no Escrevivendo 1 - Menos é mais.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Conto



Solsona nasceu sem maiores complicações.
Pelo menos, nada que dois dias na incubadora não resolvessem.
Nasceu quase normal. Seu coração funcionava perfeitamente. Tinha dois olhos, dois pulmões, duas orelhas, duas narinas, dez dedos nos pés e dez dedos nas mãos.
Quase normal.
A mão esquerda tinha três dedos. À direita restaram os outros sete.
Humanos adaptam-se a uma infinidade de adversidades. Assim seria com Solsona, não fosse um detalhe de sua personalidade. Era compulsivo. Obcecado por simetria. Tinha essa chatice desde muito novo e a passagem dos anos só fez aumentar.
Aos treze anos, o desequilíbrio estético de suas mãos tornou-se uma tortura.
A assimetria de suas mãos consumia a maior parte de seu tempo acordado e a totalidade de seu tempo de sono. Os pesadelos se sucediam por toda noite.
Sonhava com mãos simétricas, com cinco dedos em cada uma. Essas mãos tornavam-se gigantescas justiceiras que esmagavam pequenas mãos disformes, com três ou sete dedos.
Sonhava com celas escuras e suadas, com grades em formas de dedos. Dentro delas, lindas mulheres com unhas nos lugares dos rostos chupavam o sangue de pulsos milimetricamente cilíndricos.
Sonhava com aviões que despencavam. As asas, mãos com distribuição desigual de dedos.
E em seu dia-a-dia? A obsessão por simetria o presenteava com toda forma de autosabotagem.
Tentou ser goleiro durante a aula de educação física. Travou no centro do gol. As boladas entravam pelos lados. Menos uma, mirada no centro. Acertou-lhe o nariz.
Nas demais aulas, perdia tanto tempo organizando suas coisas e ideias, que não prestava atenção ao que diziam os professores. Mas ficava satisfeito. Tinha notas medianas.
De todos os seus tormentos, no entanto, as mãos lideravam.
Solsona sabia que nenhum médico era capaz de lhe dar a tão desejada simetria. Queria que algum lhe cortasse de um lado para compensar no outro. E nada de cicatrizes, claro.
Um dos tantos que visitou respondeu da forma mais polida que conseguiu:
“Peraí. Você quer que eu tire dois dedos funcionais da direita e implante na esquerda, só para ficar bonitinho? Tá maluco? Toma aqui. Este é o nome do psiquiatra da clínica. Pede para marcar uma consulta ali no balcão.”
Ele nunca procurou o psiquiatra.
Chegou aos dezoito anos convencido de que a única forma de igualar suas mãos seria amputar ambas.
Ainda não chegara a realizar seu intento. Não pela idiotice da ideia, mas porque tinha aversão à dor.
Aos vinte e um, Sofia mudou sua vida.
Era a perfeição em forma de mulher, por mais clichê que esta frase possa parecer...
Seus abundantes cabelos negros eram ondulados, brilhantes e cheiravam a erva-doce. Os olhos cinzentos eram como fornos que congelavam. Os seios eram inacreditavelmente firmes. Nem muito grandes, nem muito pequenos. Apetitosos. O único defeito de Sofia era a divisão dos dez dedos entre suas mãos. Sete na mão esquerda e três na direita.
Por esse pequeno e estúpido detalhe, os que se deitavam com Sofia não reconheciam a estupenda sorte e a dispensavam.
Não Solsona.
Ele agiu diferente.
Quando a conheceu, derreteu-se em gentileza e charme fingido. Foi numa tarde de sábado. Frio de trincar os ossos.
Solsona já era adulto. Trabalhava em livraria, anotando pedido e ajeitando livros nas prateleiras.
Tomava um café na doceria nova que abriram na galeria onde fica a livraria.
Sofia comia uma torta de limão e bebia chá.
Toda ela perfeita, simétrica, equilibrada. Menos as mãos, mas essas só esperavam o encaixe certo. Esperavam por Solsona.
Convidou-a para um jantar.
No jantar, cobriu-a de elogios, escutou atentamente a tudo que ela disse, concordou e complementou.
Transaram.
Ela, com habilidade e criatividade. Ele, sem imaginação, burocrático, ejaculador precoce.
Mesmo assim, continuaram juntos. Sofia, por alguma razão que escapava a toda lógica do universo, gostava de Solsona.
Com tempo e paciência, Sofia ensinou Solsona a satisfazê-la.
O amor durou dois anos.
Nada a se estranhar. Quem aguentaria um sujeito como Solsona por muito tempo?
Rejeitava filmes quando percebia alguma falha. Recusava-se a assistir a programas de televisão que ousassem cometer algum erro. Jogava livros por apresentarem pequenos defeitos, por mais sutis que fossem. Devolvia ao cesto roupas que não estavam perfeita e simetricamente limpas e passadas.
Em resumo, Solsona era um perfeito, completo e simétrico chato!
Sofia o amou, sim.
Ou pensou ter amado.
Talvez tudo não passasse de um encontro de carências.
Era uma tarde de sábado quando terminaram. Foram a um restaurante simples. Àquela hora, o movimento estava fraco.
Sofia tentou que fosse indolor: “Não é você... O problema sou eu...”
Solsona era chato, não burro. A conversa mole não colou.
“A gente não pode terminar! Não pode!” ele gritou, desesperado. Seu mundo desmoronando. Onde ele encontraria uma mulher como Sofia? Ela trazia equilíbrio à sua vida. Suas mãos se encaixavam!!!
Sofia não cedeu. Não podia. Não queria.
Ele chorou, implorou, acusou e xingou.
Ela explodiu: “Quer saber a verdade? O problema não sou eu. Não somos nós! É você! Não te aguento mais! Você é um chato!”
“Eu sei! Mas nossas mãos...”
“Que tem?”
“Elas se encaixam!”
“Como é? Espera um pouco ai! Você ficou comigo porque me ama ou por causa das minhas mãos?”
“Elas se encaixam!”
Sofia não ouviu mais nada. Encaixou um tapão na cara de Solsona com sua mão de sete dedos. Levantou-se e foi embora.
Durante o mês seguinte, não se viram.
Não até aquela manhã de domingo.
Solsona já havia considerado cuidadosamente os benefícios do suicídio. O fim de sua agonia e de sua solidão. Tudo deixaria de importar. Enumerou e examinou cada técnica. Frustrou-se já no planejamento.
Um tiro na têmpora seria a representação de toda a assimetria que o atormentava. Afinal, tinha que escolher um lado da cabeça para enfiar a bala.
Um tiro na testa. Mas como controlar a posição em que o corpo cairia?
Enforcar-se, talvez? Mas a cabeça poderia pender para um lado... Jogar-se do alto de um prédio? Seria um caos na calçada lá embaixo. Veneno. Assim, teria tempo de posicionar-se satisfatoriamente para esperar a morte...
Era o método perfeito.
Não fosse o fato de, por ter pensado tanto no assunto, render-se ao medo.
Desistiu.
Mas ele tinha que recuperar sua integridade simétrica. Tinha que recuperar Sofia.
Por isso, naquela manhã de domingo, ele se armou.
De coragem.
A casa de Sofia ficava em um condomínio afastado. Solsona, conhecido pelo porteiro, não teve dificuldade em passar pelo portão principal. Caminhou por ruas desertas.
Aos domingos, os moradores de condomínios não aguentam o marasmo pelo qual pagaram pequenas fortunas. Embarcam em seus carros e fogem para o movimento da cidade e seus shopping centers.
Sofia estava triste demais para acompanhar os pais. A mãe tinha avisado: “Esse teu namorado é um merda.”
Demorou a dar ouvidos. Não muito, só o suficiente para ficar triste.
Estava em casa, assistindo a filmes velhos e enchendo o perfeito quadril com as calorias de sorvetes de chocolate, quando a campainha tocou.
A casa tinha um portão baixo, que dava acesso a um corredor de pedra, cercado por jardins perfeitamente conservados, e que terminava em uma grande porta de madeira maciça.
Ao lado do portão, havia um interfone.
Era Solsona quem apertava o botão.
“Sim?” A voz sensual de Sofia.
“Sou eu. Quero conversar.” A voz irritante de Solsona.
“Não tem mais nada pra gente conversar.”
“Eu te amo, Sofia.”
“Você não ama porra nenhuma! Você só quer sei lá que merda de simetria entre nossas mãos! Você é doente! Não. É mais que isso. É um idiota! Vá à merda!”
Sofia desligou o interfone. Como a campainha não foi novamente tocada, nem uma única batida retumbou na porta, voltou a seu sorvete de chocolate, triunfante. A descarga de insultos fora ainda mais satisfatória que o tapa.
Mas Solsona não havia desistido. Estava determinado a não sair dali sem reconquistar o amor de sua vida.
Sua simetria.
Testou o portão. Estava trancado, mas era baixo. Pularia.
Para qualquer mortal, pular um portãozinho não é grande coisa. Mas, para Solsona, era um trabalho complexo. Afinal, como escolher com qual perna subir?
Resolveu, depois de pensar, calcular e considerar por meia hora, usar as duas.
Tomou distância, correu e pulou. Levou os joelhos para junto do peito. As pontas dos pés, no entanto, não ultrapassaram o obstáculo. Projetou-se desastrosamente para o outro lado, aterrissando com as duas assimétricas mãos e o nariz.
Uma hora depois, Sofia saiu para reclamar pessoalmente com o porteiro, por ter deixado o inconveniente ex-namorado entrar.
Encontrou Solsona aterrissado no caminho que levava do portão à porta, cercado pelos jardins. Seu corpo era um exemplo de perfeição e simetria.
A mesma quantidade de sangue saíra das duas narinas. A cara estava perfeitamente amassada. Nem um pouco pendente para um lado ou para o outro. Nada que o lado esquerdo de seu corpo fizera deixara de refletir no direito. Nem suas mãos desequilibravam a figura. A mão com três dedos estava aberta, em um ângulo estranho em relação ao pulso. A com sete estava no mesmo ângulo, contrário, mas os quatro dedos a mais estavam contraídos.
O nariz, os pulsos e o pescoço de Solsona quebrados pela queda.
Morrera instantaneamente.
Como o corpo acabara em tamanho equilíbrio, só o deus da simetria saberia responder.
Sofia descobriu, logo depois, que estava grávida.
Era filho de Solsona, sem dúvida.
O menino que nasceu tinha as mãos normais. Cinco dedos para cada.
Já os pés...

Conto escrito por Walter Tierno
www.waltertierno.com.br 

Conto - Virando Latas



Chamam-me de vira-lata, mas na verdade esse é meu sobrenome. Sou Felipe, o gato mais lindo do bairro. Tenho os olhos azuis da cor do céu e os pelos mais dourados e macios já vistos. Aceito meu sobrenome porque sempre virei latas de lixo quando queria roubar um lanchinho.
Os humanos não imaginam quantas delícias eu encontrava no lixo! Ossos de peixes, restos de carne e frango. Bem que poderiam separá-los e deixar num pratinho ao lado do cesto, aí eu não iria virar e derrubar tudo fazendo estardalhaço nas madrugadas.
Todos ficavam muito irritados. Tinha até um senhor bigodudo, que ficava tão nervoso que saía de casa gritando, parecendo um doido.
Aquele humano era tão esquisito! O bigode dele era tão estranho que parecia que ele tinha engolido um passarinho e deixado a parte de trás pra fora, as penas brancas esvoaçando em volta da boca. Minha vontade era chegar mais perto e conferir se não tinha mesmo um passarinho preso ali.
“Eu adoraria comer um passarinho nessa madrugada...” Eu sempre pensava.
Uma noite dessas, ele ficou tão nervoso! Ficou lá, berrando e chacoalhando aquele bigodão, pensei que me mataria. Mas, além de lindo, também sou esperto. Fugi antes que me alcançasse.
Eu já tinha me acostumado com ele e com seus gritos, até achava que, se um dia ele não aparecesse, ficaria triste.
Na última vez que fui até o lixo do bigodudo, senti um aroma delicioso de peixe fresco. Abocanhei aquela gostosura sem demora e me distraí um pouquinho. Nem vi quando ele surgiu, mostrando aqueles dentões no meio dos penachos.
“Ah, não! É o bigodão! Agora ele me pegou! Socorro!”
O covardão me agarrou pelo pescoço, me jogou numa caixa com grades e fechou a tampa. Eu estava preso! Fui levado pra dentro da casa do bigodudo, que me colocou num canto e, nem com o meu chorinho de lamentação, quis me libertar.
Comecei a miar mais alto. Ele me mandou parar, mas eu não conseguia. Estava com medo, fome, vontade de fazer xixi e queria voltar para as minhas latas.
Até que o bigodudo chegou mais perto e olhou pra mim. Primeiro com uma cara bem raivosa, mas depois começou a mudar. Foi ficando sério, até que abriu um leve sorrisinho.
O monstro tinha um coração! Fiquei impressionado, mas ainda não estava convencido dessa rápida mudança de humor. Em todo caso, continuei a miar baixinho, sem tirar de cima dele os meus grandes olhos cor do céu.
Aí ele abriu a portinha da caixa. Estendeu a mãozona de mansinho e me pegou no colo. Fiquei meio nervoso, quase fiz xixi. Ainda bem que me segurei, porque ele me levou para o paraíso, que ele chama de cozinha. Encheu um pires com leite gelado e eu bebi tudinho. Ele tinha finalmente se rendido ao meu charme.
Depois me pegou no colo de novo, colocou-me no sofá e começou a alisar meu pelo. Ficou lá me olhando e disse que me achava bonito. Isso eu já sabia. Afinal, eu sou Felipe Vira-latas, o gato mais lindo do bairro, é impossível mesmo resistir.
Desde então moro aqui com Bigodão. Faço companhia pra ele e ele me enche de delícias. Eu deixo que ele me afague e continue dormindo na cama, que já foi dele e agora é minha. A troca é boa. Não preciso mais virar as latas por aí, mas quando fico com saudade dessas aventuras, eu viro a que ele tem na cozinha. Só pra não perder o costume, e para fazer valer meu sobrenome.

Ah, só pra constar: ele não engoliu um passarinho, não! Já fui lá verificar...

Conto escrito por Alessandra Morales
Alessandra Morales participou do Escrevivendo 1 - Menos é Mais e Escrevivendo 2 - Criadores e Criaturas.

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Escreviventes na Bienal de São Paulo - 2016

Uma turminha do Escrevivendo vai participar da Bienal do Livro de São Paulo de 2016. Vários estreantes do mundo literário. E os mentores, claro.
Vamos aqui fazer uma lista, para você marcar na sua agenda:

Comecemos com a titia Giulia. Seus livros da série Kaori (Kaori: perfume de vampira / Kaori 2: coração de vampira / Kaori e o samurai sem braço) e Flores Mortais estarão disponíveis no espaço da Giz Editorial, no estande da Editora Minuano (C060). Além disso, no dia 28/08 (domingo) ela participará do bate-papo "Literatura para Jovens" no Espaço da Palavra da BIBLIOSESC às 15 horas. Link do evento aqui. Em seguida, Giulia estará lançando o livro HISTÓRIAS FELINAS, que ela escreveu em parceria com Helena Gomes - vocês podem aproveitar para segui-la até o estande da SESI-SP Editora (E080). Começa às 17h. Link do evento aqui.

O Walter Tierno também terá seus livros no espaço da Giz, na Minuano. "Cira e o Velho" e "Anardeus. No calor da destruição". E lançará seu terceiro livro, COMO TATUAGEM, no estande do Grupo Editorial Record, dia 3 de setembro, às 11h. Link do evento aqui.

Alessandra Morales, Bruno Catão, Allana Machado e Paulo Mendonça estarão lançando o livro CONTOS AMARGOS. Vários dos textos desse livro foram escritos durante o Escrevivendo. Será no estande da Editora Pedragon. 27 e 28 de agosto, às 15h30min, 3 de setembro, às 19h e 4 de setembro, às 16h40min. Link do evento aqui.

Já anunciamos aqui, mas vale reforçar (mesmo porque teve mudança no local). A Tayane Meireles vai lançar seu primeiro livro, ENTRE DOZE PASSOS & SEIS LAÇOS. Ainda não está confirmada sua participação na Bienal. Mas o lançamento será na Fnac do Shopping Morumbi, dia 20 de agosto, às 15h. O link para o evento é este.

E ainda temos mais um evento no último dia da Bienal (por isso, o Walter e a Giulia não irão ao Anhembi nesse dia). No dia 4 de setembro, o Expresso Mágico. Um evento para fãs de Harry Potter. Será na Mooca. O link do evento é este.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Conto - Olhai por nós

Um grito morre em sua garganta, sem conseguir ferir o silêncio. Depois de horas de berros, não sobra muita voz para os instantes finais. É sempre assim que acaba. 
Kleber desenterra o aço frio do peito da garota e espalha o sangue pela face. Repugnante. Mas gosto não se discute. Lamenta-se. E não me cabe julgá-lo, ele é apenas meu protegido. E eu sou seu segurança.
Abotoo meu terno e ajeito a gravata. Gosto de vestes tradicionais, “os modos fazem o homem”, é o que dizem. Admiro o trabalho que Kleber deixa para trás. Carne dilacerada. Unhas arrancadas. Olhos incinerados. O vermelho a tingir a pele. Um trabalho de artista. Pena que acabou rápido. Sim, esse tipo de coisa me dá prazer. Não devia, mas dá. Ainda que não goste de provocar dor, deliro ao assistir a outros produzindo. Por isso escolhi Kleber, que, desde novo, abria pequenos animais utilizando facas de cozinha. O garoto era um diamante bruto, pronto para ser lapidado. Desde então estamos juntos. Estava lá, quando deu o primeiro beijo. Estava lá, quando decepou a língua da primeira vitima. Nostalgia é um ópio suave, mas viciante.
A caminhada até a casa é longa, acompanhada por agulhadas geladas da chuva noturna. Mas, ao chegar, nada de toalhas ou banho quente para Kleber. Tirou uma vida por meio da dor e somente com a dor poderia se lavar. É a sua fé. Talvez eu devesse protegê-lo de si mesmo, mas o seu masoquismo está entre meus deleites favoritos. Aguardo o preparo de suas ferramentas de autoflagelo.

 “Olhai por todos deste chão, 
Pelos que têm bom coração!”

Ao fundo, o velho rádio toca baixinho. Reconheço a música: “Olhai por nós”, de Antônio Marcos. Olhai por nós? Que piada! Mal sabem eles que estão sempre sendo observados. 
Mesmo ali, posso senti-los. Procuro através da janela do apartamento e logo os vejo. Os seguranças das vítimas anteriores de Kleber. Eles o seguem há meses, querem vingança. Nunca a conseguirão, pois eu estou aqui. Sorrio para eles, malicioso, e logo desaparecem. Sou mais antigo. Mais poderoso. Kleber é o alivio do meu tédio, um bom passatempo. Não perderia por nada o meu brinquedo tão cedo. 
Percebo agora outra coisa: o brilho dicromático do giroflex das viaturas policiais ao longe. Eles o haviam encontrado. Estão ficando mais rápidos. Volto-me para Kleber e noto as lágrimas no seu rosto, enquanto se marca com ferro quente. Está em transe. Bastardo maluco.
Caminho até ele e o toco de leve no ombro. Uma súbita percepção dos arredores o atinge como um tiro. A famosa sensação que vocês, mortais, chamam de intuição. Cambaleante de dor, espia pela janela. Pressente que o perigo se aproxima. Pega tudo que é necessário e dispara para fora do apartamento. Abro minhas asas e o sigo, claro. Tenho de proteger o meu cliente.
Afinal, até mesmo assassinos seriais precisam de Anjos da Guarda.




Conto escrito por Dimitrius H. Alves
Ilustração de Giulia Moon
Este conto fez parte de uma das atividades práticas do Escrevivendo Criadores e Criaturas.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Histórias Felinas. Novo livro de Giulia Moon e Helena Gomes.


Em Histórias Felinas os gatos são heróis, vilões ou apenas coadjuvantes, refletindo parte do mistério que envolve esses seres únicos desde que cismaram de viver entre os humanos. Daquela época até hoje, apesar de todos os esforços, ninguém conseguiu decifrá-los. Talvez nunca se consiga.

Os gatos se espalham e se espreguiçam nas dez narrativas deste livro, que reúne suspense, mistério, aventura e uma boa dose de terror. O leitor descobrirá que o inacreditável muitas vezes pode surgir em forma de olhos inocentes e passos elegantes de patas almofadadas que transitam, sutis, entre a luz e a sombra.

Enigmas a serem decifrados no incrível mundo felino que existe além da imaginação.

Histórias Felinas. Você nunca mais vai olhar para o seu gato com os mesmos olhos...